Comportamento

Não é a Copa que está à venda — mas a Europa não comprou a explicação

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A FIFA oficializou nesta terça (28) a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), subsidiária que reuniria os direitos comerciais da entidade — transmissão, patrocínio, ticketing e licenciamento — junto com a operação dos seus torneios. O plano é vender participações minoritárias e sem controle para levantar até US$ 4,2 bilhões ainda este ano, sobre uma avaliação inicial de US$ 20 bilhões. O JP Morgan assessora o processo, e a Thrive Eternal, novo veículo da Thrive Capital, aparece como investidora líder esperada. A gestora é de Joshua Kushner; Jared, irmão dele, não é investidor.

Horas antes, a UEFA já havia respondido a uma reportagem do The Times: o plano cruza uma linha que nunca deveria ser cruzada, e a alma e a governança do futebol não são ativos para negociar (tradução de trabalho do original em inglês). À tarde, a Sky Sports News reportou que as federações europeias farão uma reunião de emergência virtual ainda esta semana, com disposição para usar a ameaça de boicote. A Bloomberg fala em discussões internas que incluiriam também o Mundial de Clubes. Ninguém anunciou boicote nenhum: o que está reportado é a carta na mesa, não a decisão.

Dois detalhes que o título fácil apaga. O primeiro: não se vende "a Copa", vende-se uma fatia de uma subsidiária. O comunicado oficial não fixa percentual — a imprensa fala em até 21% (Sportico) ou cerca de 20% (RTÉ), e a Band chegou a citar de 20% a 30% (Band). O segundo: nada está aprovado. A estrutura depende do apoio da maioria das associações-membro e de aprovações do Conselho da FIFA. Hoje é consulta.

A contrapartida está no próprio comunicado e é concreta. O repasse do FIFA Forward por federação passaria de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões no ciclo 2027-2030, chegando a US$ 22 milhões e US$ 24 milhões nos ciclos seguintes, mais um aporte opcional de até US$ 20 milhões pelo novo FIFA Fast Forward (FIFA). Para federação pequena, isso muda o jogo — e é por isso que a votação não é óbvia.

A FIFA também negou pontos da reportagem: que Infantino ficaria à frente da nova empresa ao fim do mandato e que funcionários assinaram acordos de confidencialidade. O The Times, com base em vazamentos, reportou que ele lucraria pessoalmente virando comissário da FFE — reporte de imprensa, contestado pela entidade, ainda sem confirmação.

E tem a camada que não é sobre alma nenhuma: é FIFA contra UEFA. A europeia não é árbitro neutro — a Champions disputa calendário e caixa com a expansão dos torneios da FIFA. Em 2021, foi a ameaça europeia que derrubou o plano do Mundial bienal. O precedente está na mesa.

Uma última conta. Se o boicote sair do papel, o próximo Mundial do calendário é o Feminino de 2027: 24 de junho a 25 de julho, 32 seleções e oito cidades-sede no Brasil, com a final no Maracanã. Das 32 vagas, 11 são da Uefa (FIFA). É cenário hipotético. Mas, se acontecer, a fatura chega aqui. CBF e CONMEBOL, até o fechamento desta nota, não se pronunciaram.

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