CULTURA DIGITAL
O Google Earth aprendeu a inventar o mundo — e foi desligado em 24 horas

Piotr Swat / Shutterstock.com
Na quinta-feira (30/7), o Google liberou no Google Earth web um botão chamado "create image". Dava para dar zoom em qualquer ponto do planeta, escrever um prompt e receber uma imagem fotorrealista colada por cima dos dados reais de satélite, rodando em cima do Nano Banana 2. Na sexta (31/7), o botão já não existia mais.
O que aconteceu no meio foi jornalista testando. A BBC Verify gerou uma Torre Eiffel desabada e um buraco engolindo a Pirâmide de Gizé. A 404 Media plantou arranha-céus numa zona rural — e manifestantes na porta do próprio escritório do Google. Detalhe: o post de lançamento da empresa sugeria, entre os usos possíveis, dar um "makeover" no campus dela mesma. Testes da NPR produziram uma ilha petroleira em chamas e o Capitólio inundado.
O Google confirmou o recuo em nota no X: "as pessoas confiam de forma única no Google Earth como uma visão confiável do mundo". A empresa diz que viu profissionais de geo usando bem a ferramenta, mas também gente compartilhando capturas que pareciam violar suas políticas — e que tira o recurso do ar enquanto trabalha em salvaguardas mais fortes. Não deu data de volta nem detalhou quais políticas foram violadas.
Duas coisas que os prints não contam. O acervo real de satélite não foi tocado: as geradas não entravam na experiência principal do Earth para outros verem, e saíam com a marca d'água invisível SynthID. E o estrago, quando houve, veio das capturas circulando fora da plataforma. Críticos apontam o óbvio: quase ninguém checa marca d'água, e checar exige um passo extra — perguntar ao Gemini ou usar o Lens.
Por que isso não é só mais um tropeço de IA: o Google Earth virou, em duas décadas, uma das ferramentas que jornalistas e verificadores usam justamente porque foto de satélite era cara e difícil de falsificar. Jake Godin, pesquisador sênior da Bellingcat, lembrou à NPR que imagens de satélite adulteradas já circularam antes — a diferença é que agora sairiam em um clique.
E aqui vira assunto nosso. O Brasil vota em 4 de outubro e a campanha oficial começa este mês. Não existe caso documentado de imagem falsa do Earth circulando como notícia real — o que ficou provado, em 24 horas, foi a capacidade de fabricar uma.
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