ESPORTE
A Fifa recuou da terça à sexta, mas o preço da Copa já ficou na mesa

Doha Stadium Plus Qatar from Doha, Qatar, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
A Fifa comunicou na sexta-feira (31) que seu projeto de criar uma empresa comercial com sócios privados não vai adiante. O plano tinha vindo a público na terça (28), por reportagens do Times e do Financial Times. No mesmo dia do recuo, Carlos Cordeiro — assessor sênior de Gianni Infantino e representante da entidade na força-tarefa da Casa Branca para a Copa 2026 — pediu demissão em protesto. Infantino afirmou que a proposta gerou divisões e que, independentemente do nível de apoio, deixou de servir ao objetivo original (comunicado oficial).
Vale separar o que estava em jogo do que circulou como manchete. Ninguém ia vender a Copa do Mundo. O projeto era a FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária 100% da própria Fifa que reuniria direitos de TV, patrocínios, ingressos, licenciamento e a operação dos torneios — com até 20% do capital aberto a investidores. Avaliação: US$ 20 bilhões, cerca de R$ 102 bilhões, para levantar US$ 4,2 bilhões. A entidade sustenta que manteria controle, governança e calendário. A Uefa respondeu que a distinção é apenas formal, porque um sócio privado teria interesse econômico no negócio do torneio. A disputa real é essa — e não a venda do troféu.
Na quinta (30), as 55 federações europeias rejeitaram a proposta por unanimidade e ameaçaram tirar suas seleções das competições Fifa enquanto ela estivesse viva. Concacaf e AFC também se posicionaram contra. A Conmebol publicou um comunicado sem rejeitar nem apoiar, pedindo mais informação sobre alcance, estrutura e governança; CAF e OFC apenas abriram avaliação. A aritmética explica o desfecho: Uefa, Concacaf e AFC somam 143 das 211 associações — sozinhas já inviabilizavam os cerca de 106 votos necessários. A conta não fechava nem com a África inteira a favor.
Houve apoio, inclusive. O presidente da federação tcheca, David Trunda, disse ver impacto positivo nas intenções da Fifa — posição pessoal, fora da linha da Uefa (Sky News). Em carta às 211 associações, Infantino ofereceu até US$ 40 milhões a cada uma que apoiasse a proposta até 19 de setembro (Reuters); o documento descrito pelo Metrópoles detalha dois repasses de US$ 20 milhões, um deles apresentado como independente da posição adotada na consulta (Al Jazeera). Eram 53 dias para decidir sobre uma reestruturação bilionária — e boa parte da irritação institucional foi com o procedimento.
A rachadura também foi interna: o COO da Fifa, Kevin Lamour, afirmou que o quadro funcional foi mantido no escuro e descreveu o projeto como obra de uma pessoa só (Deadline). Fica o que não foi combinado: a Uefa pediu compromisso contratual de que a proposta nunca seja revivida, e o comunicado da Fifa fala apenas em reunir as partes interessadas (ESPN). Da terça à sexta: foi o que bastou para derrubar o projeto. E se ele voltar com outro nome?