ESPORTE
Perdeu a Copa, publicou a carta: o pós-derrota já tem modelo pronto

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Oito dias depois da final da Copa, Kylian Mbappé publicou uma carta aberta aos torcedores franceses. O texto saiu na segunda-feira (27) nas redes do jogador e segue uma estrutura reconhecível: agradece o apoio, admite que a ausência do título dói, agradece aos companheiros e a Didier Deschamps, e termina dizendo que a história continua. As versões que circulam em português são traduções da imprensa a partir do original em francês, e não batem entre si. Numa delas, segundo a Exame: "Dói e continuará doendo por algum tempo, não vou mentir sobre isso."
A França terminou em quarto. Caiu para a Espanha na semifinal, por 2 a 0, e perdeu a disputa de terceiro lugar para a Inglaterra por 6 a 4, no dia 18, em Miami — partida em que Mbappé marcou duas vezes. Ele fechou o torneio como artilheiro da edição, com 10 gols, e como maior goleador da história dos Mundiais, com 22, à frente de Messi (21) e Klose (16), segundo a CNN Brasil. Recorde individual, nenhum título coletivo. Não é a primeira vez: em 2022 ele também saiu artilheiro e vice.
O que a carta escancara é menos o gesto e mais o formato. A "carta pós-Copa" virou um gênero com roteiro quase fixo — agradecer à torcida, admitir a dor, agradecer ao grupo e ao técnico, prometer o próximo ciclo. Vini Jr. publicou a sua versão em 10 de julho, cinco dias depois da eliminação do Brasil, pedindo desculpas à torcida. Outros não escreveram nenhuma. Vale a distinção: não publicar um texto não é o mesmo que não falar — Neymar falou à imprensa ainda no gramado, no próprio dia da queda, em 5 de julho.
Na recepção brasileira, a carta virou régua, e é aí que a conversa se divide. Uma leitura diz que assumir publicamente a derrota, com nome e assinatura, faz parte do trabalho de um capitão. A outra diz que o formato é aprendido, muitas vezes redigido por equipe de comunicação, e que medir compromisso por postagem é confundir marketing com caráter. Um detalhe escapa das duas: a saída de Deschamps foi anunciada em janeiro de 2025, um ano e meio antes do torneio — ler o agradecimento como defesa de um técnico caído é interpretação, não fato.
A gente garimpou o mecanismo, não o veredicto. Fica a pergunta: a carta virou parte do ofício ou só mais um item do calendário pós-Copa?