COMPORTAMENTO
Aperte o botão e alguém aparece na tela do ponto de ônibus. Quem paga a conta é o anúncio

Crédito: Divulgação
Desde terça-feira (4), quem espera ônibus na Avenida Afonso Pena, no Centro de Belo Horizonte, pode apertar um botão e ver uma pessoa aparecer no telão do abrigo. Ao vivo. É o Abrigo Amigo, lançado pela Prefeitura junto com o Próxima Parada, de previsão de chegada em tempo real.
Funciona assim: das 20h às 5h, o botão — com placa em Braille, a 1,20 m do chão — abre uma videochamada com uma central de 30 atendentes, todas mulheres, treinadas por assistentes sociais e especialistas em violência contra a mulher. Não é preciso se identificar, e o atendimento também é feito em Libras. A conversa acaba quando o ônibus chega, e a central pode acionar serviços públicos. Serão 100 abrigos assim, instalados aos poucos ao longo de agosto.
Aqui entra o detalhe que o telão não entrega: a Prefeitura descreve o Abrigo Amigo como uma parceria com a Eletromidia "sem qualquer custo para o município". "Não tem R$ 1 de dinheiro público investido", disse o prefeito Álvaro Damião no lançamento. Quem opera é a Eletromidia, empresa de mídia out-of-home; a Claro patrocina desde 2025. O serviço roda em cima do inventário de anúncios — o mesmo painel que acolhe é o que vende.
Nem o projeto nasceu em BH. Criado em 2023 pela Eletromidia com a AlmapBBDO, ganhou Leão de Ouro em Mídia em Cannes em junho daquele ano; os dez primeiros abrigos de São Paulo abriram no fim de agosto. Hoje são 612 unidades em nove cidades, com meta de 785 no início de 2027. BH é a décima.
Daí saem duas leituras, e as duas se sustentam.
Uma: 97% das brasileiras dizem sentir medo de sofrer violência quando se deslocam pela cidade, e 80% sentem muito medo — é o que apurou o Instituto Patrícia Galvão com o Instituto Locomotiva em 2024, ouvindo 4.001 mulheres, com apoio da Uber. Nesse cenário, quem espera sozinha à 1h da manhã passa de sozinha a acompanhada. De graça, sem app, sem depender de bateria, sem se identificar. Todas as noites, das 20h às 5h. Se a alternativa real era nada, é melhora concreta.
A outra: a tela não resolve iluminação, frequência de ônibus nem impunidade. E os abrigos do Próxima Parada ficam com câmeras ligadas ao Centro de Operações da Prefeitura — 400 pontos segundo a PBH, 293 segundo o Estado de Minas. Essas não dependem de botão.
A primeira leva também não vai à periferia: a Eletromidia priorizou pontos de espera longa perto de regiões de trabalho, não os bairros onde se desce e se caminha até em casa. Eduardo Pazinato, doutor em políticas públicas pela UFRGS, avaliou o modelo em Porto Alegre: "É interessante essa coalizão de esforços do público e do privado, mas me preocupa o tempo de resposta."
O próprio prefeito baixou a bola: "O Abrigo Amigo veio para nos ajudar. Não é para resolver o problema. O problema está na cabeça daquele que ataca."
Fora das 20h às 5h, o abrigo é um painel comum.